Nota do AutorUma mensagem de Daniel
"Agosto não foi o mês em que eu deixei de sentir, foi o mês em que sentir deixou de ter consequência, e essa foi a diferença mais silenciosa e mais definitiva de todo o processo, porque não houve um momento exato de ruptura, não teve um dia marcando o fim, teve percepção, repetida várias vezes, até que aquilo que antes precisava de esforço simplesmente deixou de exigir qualquer tipo de controle.
Durante muito tempo eu acreditei que o problema era a saudade, a lembrança, o sentimento em si, mas agosto deixou claro que nunca foi isso, o problema sempre foi o que eu fazia depois que isso aparecia, era a insistência, a continuidade, a necessidade de transformar qualquer sensação em análise, em história, em possibilidade, e quando isso parou, mesmo que o sentimento ainda aparecesse em alguns momentos, ele já não encontrava mais espaço para crescer.
Teve um ponto em que eu percebi que não precisava mais evitar, não precisava mais me proteger, não precisava mais desviar o pensamento, porque já não existia risco de me perder ali, e isso muda completamente a relação com o passado, porque ele deixa de ser algo que precisa ser controlado e passa a ser só algo que existiu, sem força, sem influência, sem presença ativa.
Agosto também trouxe uma clareza diferente, não aquela que vem de entender tudo, mas aquela que vem de não precisar mais entender, de não buscar mais explicação, de não revisitar o que já foi vivido, porque quando algo realmente se encerra dentro de você, a necessidade de resposta desaparece junto.
E, talvez pela primeira vez, eu percebi que não foi o tempo que levou, fui eu que parei de sustentar, fui eu que deixei de alimentar, fui eu que, aos poucos, fui soltando sem perceber, até que aquilo que antes ocupava tanto espaço passou a caber apenas como lembrança leve, sem peso, sem identificação.
Agosto não foi sobre esquecer.
Foi sobre não carregar mais nada que já não faz parte de mim.
E existe uma paz muito específica nisso… porque não é ausência, é liber"