Nota do AutorUma mensagem de Daniel
"Junho não foi o mês em que tudo passou, foi o mês em que deixou de ter o mesmo efeito, e essa diferença, que parece pequena quando colocada em palavras, mudou completamente a forma como eu vivi cada dia, porque não foi sobre não sentir mais, foi sobre sentir e não ser arrastado junto, foi sobre perceber o início de um pensamento e, pela primeira vez, ter escolha no meio dele.
Durante muito tempo eu acreditei que o processo seria marcado por um ponto final claro, um dia específico em que tudo simplesmente deixaria de existir, como se a ausência de sentimento fosse o sinal de que eu finalmente segui em frente, mas junho me mostrou outra coisa, me mostrou que seguir não tem esse tipo de anúncio, não tem ruptura visível, tem repetição, tem recaídas pequenas, tem momentos em que parece que nada mudou e outros em que, sem esforço, eu simplesmente não volto mais para o mesmo lugar.
Teve dias em que eu voltei, mesmo sabendo que estava voltando, e isso antes seria motivo de culpa, de frustração, de sensação de fracasso, mas aqui não foi, aqui foi diferente, porque eu comecei a entender que perceber já é parte da mudança, que interromper no meio também conta, que não ir até o fim de um pensamento já altera o caminho, e que evolução não é ausência de erro, é redução de permanência.
Junho também trouxe algo que eu não esperava tanto quanto a dor: o vazio, não como falta de alguém, mas como espaço, e espaço assusta, porque ele não vem preenchido, não vem com memória, não vem com explicação, ele só existe, e talvez uma das partes mais difíceis desse mês tenha sido não correr para preencher isso com qualquer coisa que me fizesse sentir de novo, mesmo que fosse algo que já não fazia sentido.
E, aos poucos, quase sem perceber, a intensidade mudou, o tempo dentro dos pensamentos diminuiu, a necessidade de entender foi desaparecendo, e aquilo que antes ocupava tanto espaço começou a caber apenas como lembrança, sem peso, sem urgência, sem controle.
Junho não foi sobre esquecer."